A UTILIZAÇÃO DO GUZERÁ NO CRUZAMENTO INDUSTRIAL
 

Roberto D. Sainz

Universidade da Califórnia - Davis (EUA)

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Bezerros 1/2 Guzerá 1/4 Nelore 1/4 Simental

Introdução

        O cruzamento industrial é uma das ferramentas mais importantes de que o pecuarista pode lançar mão, tendo em vista o aumento rápido da produtividade do seu rebanho (BROCHADO, 1969). Um sistema de cruzamento bem conduzido permite que o pecuarista tire proveito de combinações adequadas das características superiores de várias diferentes raças (complementaridade) e também produz heterose. A heterose, muitas vezes referida como "vigor híbrido", representa a diferença entre o desempenho médio dos animais mestiços e desempenho médio das raças que foram cruzadas. Características ligadas à adaptação e reprodução tendem a apresentar os maiores acréscimos, enquanto aquelas ligadas ao desempenho e carcaça, os menores. Os maiores ganhos são obtidos quando se utilizam raças geneticamente mais diferentes. Por exemplo, espera-se maior efeito da heterose quando se cruzam raças zebuínas com taurinas do que quando zebuínas ou taurinas são cruzadas entre si. Além da heterose, há o efeito aditivo tanto das raças utilizadas, quanto dos indivíduos dentro de cada raça. A heterose mede a superioridade em relação à média dos pais e, se uma das raças tiver desempenho muito baixo, a heterose pode não ser suficiente para que o animal cruzado seja superior ao animal da raça pura mais produtiva.

Por que usar um sistema de cruzamento: quais são as vantagens?

     Por exemplo, podemos verificar os resultados do acasalamento de touros da raça B com vacas da raça A:

Peso ao desmame de bezerros da raça A

180 kg

Peso ao desmame de bezerros da raça B

220 kg

Peso ao desmame médio A e B

200 kg

Peso ao desmame de bezerros A x B

224 kg

Efeito da heterose (absoluto)

+ 24 kg

Efeito da heterose (percentual)

+ 10,9%

     A heterose individual é aquela própria do animal cruzado (independentemente de sua mãe ser de raça pura ou cruzada); reflete-se em pesos de mais elevados e crescimento mais rápido em relação ao desempenho médio das raças que foram cruzados. A heterose materna é aquela observada em fêmeas cruzadas (como a precocidade e a taxa de natalidade) e na sua progênie (incluindo a sobrevivência do bezerro, peso ao nascer e peso de desmame). Já que a fertilidade é uma característica economicamente importante, até mesmo o aumento na taxa de natalidade de 3 a 5% devido à heterose pode ter um efeito decisivo na rentabilidade. Vacas cruzadas também produzem bezerros com maiores taxas de sobrevivência e pesos ao nascimento. O nível de heterose materna para peso ao desmame dos bezerros é particularmente elevado, com média entre 5% e 16%. Isso ocorre além das melhorias, devido à heterose individual.

  Deve-se ressaltar que a heterose não melhora todas as características. Características de carcaça, como área de olho de lombo, marmoreio, maciez da carne, etc., não são afetadas pelo cruzamento. Tais características devem ser melhoradas pela seleção genética das raças de origem. Da mesma forma, a heterose tem pouco efeito sobre o tamanho adulto de vacas mestiças.

     O cruzamento industrial oferece vantagens além da heterose. O pecuarista pode selecionar raças com características complementares, produzindo animais cruzados com uma combinação mais desejável de características de interesse econômico. A complementariedade é oriunda da combinação adequada de características controladas por genes de genética aditiva contribuídos pelas raças de origem. As características controladas aditivamente são aquelas para as quais a superioridade ou inferioridade dos pais é passada consistentemente para a progênie. As características altamente herdáveis, como a rusticidade, o peso adulto e as características de carcaça, são fortemente controlados por genes aditivos.

As bases genéticas da heterose

     Os efeitos deletérios da consanguinidade são bem conhecidos, desde a redução do desempenho até, em casos extremos, no aparecimento de defeitos genéticos, que podem chegar a ser fatais. Um fato que é pouco discutido é que todas as raças são de certa forma endogâmicas. Isso porque, para obter uniformidade (isto é, fixar as características raciais) no que diz respeito à coloração, manchas e outras características físicas durante a formação de qualquer raça pura, é necessário acasalar animais similares e descartar aqueles que não obedecem aos padrões estabelecidos. O aumento no desempenho dos animais oriundos do cruzamento entre raças (heterose) ocorre porque, quando animais de raças diferentes são cruzados, os efeitos da endogamia são removidos e, portanto, aumenta o desempenho. O processo de endogamia resultou em animais que possuem maior homozigose que os animais que foram usados para fundar a raça.

     A homozigose descreve uma condição onde o par de genes em um determinado "locus" (localização no cromossomo) é idêntico. O animal mais homozigoto tem uma percentagem mais elevada dos "loci", no qual genes pares são idênticos. Com o aumento da homozigose, vem a uniformidade crescente. Enquanto a endogamia realiza o objetivo de uniformidade da raça, o mesmo aumento em homozigose também reduz a produtividade, devido à expressão de genes recessivos – cada um com pequenos efeitos – em muitos "loci". Felizmente, cada raça se tornou homozigota para diferentes genes recessivos. Portanto, quando duas raças são cruzadas, os genes recessivos (frequentemente deletérios) de uma raça são combinados com genes dominantes (desejáveis) da segunda raça. O mascaramento de qualquer único gene deletério recessivo pode ser menor, porém o efeito combinado entre muitos "loci" que afetam características como percentual de natalidade, crescimento e produção de leite podem ser expressivos. O efeito é de aumentar o desempenho dos animais cruzados, observado como heterose. Isso explica também o fato de que o grau de heterose aumenta à medida que a distância genética entre as raças cruzadas é maior. Evidentemente, as raças zebuínas e as raças taurinas são mais semelhantes entre si, porém entre elas há uma diferença genética maior do que dentro da própria raça. Portanto, a maior heterose possível é obtida com o cruzamento entre uma raça zebuína e uma raça taurina.

Tabela 1. Médias de heterose para características economicamente importantes em bovinos de corte.

 

Traço

Tipo de Cruzamento

Bos taurus

x Bos taurus

Bos indicus

x Bos taurus

Heterose individual

Peso ao nascimento

2,4%

11,1%

Peso ao desmame

3,9%

12,6%

Ganho pós-desmame

2,6%

16,2%

Heterose materna

Taxa de natalidade

3,7%

13,4%

Sobrevivência do bezerro

1,5%

5,1%

Peso ao nascimento

1,8%

5,8%

Peso ao desmame

3,9%

16,0%

Adaptado de: L.V. Cundiff, L.D. Van Vleck, L.D. Young, K.A. Leymaster and G.E. Dickerson. 1994. Animal Breeding and Genetics. Em: Encyclopedia of Agricultural Science, Vol. I. pp 49-63. Academic Press Inc.

 

Seleção de raças para uso em sistemas de cruzamentos

     A escolha de raças para incluir em um sistema de cruzamento é de fundamental importância, porque, para muitas características, existem grandes diferenças no desempenho médio de raças diferentes. As raças diferem na taxa de crescimento, produção de leite, características de carcaça e idade à puberdade, fertilidade e rusticidade. Essas diferenças entre raças, bem como a variabilidade do nível de heterose esperado de vários cruzamentos, precisam ser consideradas ao se planejar um programa de cruzamento.  

     Ao escolher as raças para um sistema de cruzamento, o ambiente – nutricional e climático – também deve ser considerado. Por exemplo, o potencial de crescimento da raça Charolesa é muito maior do que das raças zebuínas, mas as vacas meio-sangue Charolês teriam um porte maior e, sob as condições tropicais, com pastagens de baixa qualidade, poderiam não ser capazes de manter uma condição corporal suficiente para a reconcepção, a não ser que recebessem uma suplementação, aumentando assim seu custo de produção. Esse problema é especialmente agudo para novilhas de primeira cria em lactação. Assim, em sistemas de produção extensiva, a utilização de raças taurinas e de maior porte não seria viável. Outro fator importante na escolha das raças a serem incluídas em um sistema de cruzamento é o grau de tecnificação da fazenda. Como já foi apresentado, o maior grau de heterose é obtido com o cruzamento de uma raça zebuína com uma raça taurina, porém isso requer o uso da inseminação artificial (IA), haja visto que os machos taurinos puros geralmente apresentam baixa fertilidade sob as condições tropicais do Brasil central. Nem todas as fazendas possuem a capacidade técnica, gerencial e de infraestrutura para adotar essa prática. Ademais, até nas melhores condições de manejo a IA é capaz de cobrir apenas uma percentagem do rebanho, necessitando o uso de touros de repasse. Para utilizar a monta natural em um sistema de cruzamento, o pecuarista deverá escolher entre as raças zebuínas para obter as vantagens da heterose.


Novilhas Guzonel Filhas de Touros Melhoradores Guzerá IT

Sistemas de cruzamento

     Existe uma infinidade de sistemas de cruzamento que podem ser planejados, ao menos no papel, mas três deles são básicos: terminal, rotacional e composto. Todos têm sido usados em várias partes do mundo. Cada um tem seu próprio conjunto de vantagens e desvantagens. O sistema de cruzamento pode incluir duas, três, quatro, enfim quantas raças existam no planeta. Existem inúmeros artigos e livros sobre esses sistemas e uma discussão detalhada dessas opções foge do alcance deste artigo. Quanto mais complexo o sistema, mais difícil de executar na prática.

     Além da capacidade técnica da fazenda, outro fator importante na escolha de um sistema é o tamanho do rebanho, lembrando que, para a monta natural, cada grupo de fêmeas a ser cobertas por touros de uma raça diferente irá precisar de um piquete separado. Segundo o Censo Agropecuário de 2006 (IBGE), 88% dos rebanhos bovinos do Brasil possuem menos de 100 cabeças de gado, com mais 9,6% abaixo de 500 cabeças e somente 2,4% acima de 500 cabeças. Isso significa que, para a esmagadora maioria dos pecuaristas, seria inviável pensar em um sistema de cruzamento com mais de duas raças, a não ser que se utilize a IA. De acordo com a Associação Brasileira de Inseminação Artificial (ASBIA), em 2014 foram comercializadas 1.095.238 doses de sêmen de raças de corte, das quais as primeiras três foram Nelore (57,4%), Angus (11,4%) e Guzerá (5,4%). Presumindo um número médio de serviços/vaca de 1,8, isso representa a cobertura de aproximadamente 608.465 vacas de corte, ou seja, apenas 10% das vacas de corte no Brasil são inseminadas. Assim, é evidente que a pecuária de corte brasileira é composta principalmente de pequenos rebanhos, que utilizam a monta natural para a reprodução. Um sistema de cruzamento rotacional de duas raças e com monta natural pode ser muito rentável para o pequeno produtor. Por exemplo, para um rebanho de 30 vacas, cada touro seria substituído a cada 3 anos e a raça do touro seria mudada a cada 6 anos.

     Nesse sistema, começando com um rebanho Nelore (ou anelorado) e utilizando um touro Guzerá por três anos, seguido de outro touro Guzerá por mais três anos. No sétimo ano, o touro Guzerá seria substituído por um touro Nelore, nesse caso para cobrir as fêmeas Guzonel (1/2 Nelore : 1/2 Guzerá). Após outros seis anos, as filhas desse cruzamento (3/4 Nelore : 1/4 Guzerá) seriam acasaladas por um novo touro Guzerá, produzindo filhas com 3/8 Nelore e 5/8 Guzerá. Daí em diante, a rotação de raças continuaria produzindo bezerro(a)s variando entre 3/8 e 5/8 de cada raça, com as devidas vantagens da heterose e um mínimo de complexidade no manejo. Esse sistema pode gerar um aumento expressivo na rentabilidade sobre um sistema baseado em somente uma raça. Também não elimina a oportunidade de se introduzir uma terceira raça de cruzamento, por exemplo o Angus, mediante IA, com o abate de toda a progênie tricross.


Fêmeas Guzonel Paridas de Guzerá

Seleção de touros para uso em cruzamentos

     Independentemente do sistema de acasalamento e das raças utilizadas, é essencial selecionar touros com valor genético superior. A seleção de touros é especialmente importante, pois em apenas três gerações eles serão responsáveis por 87,5% de composição genética do rebanho. Ao considerar as características exigidas em touros usados, é importante considerar os objetivos da seleção, tais como precocidade, fertilidade, crescimento ou qualidade de carcaça. A melhor forma de garantir que os touros selecionados sejam realmente melhoradores do rebanho é comprar touros de criadores que participem de um programa de melhoramento idôneo, com Diferenças Esperadas na Progênie (DEPs) de acordo com os objetivos e a realidade da fazenda.


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Conclusões

Um programa de cruzamento bem-sucedido deve ser planejado e executado consistentemente ao longo do tempo. O sistema escolhido deve considerar vários fatores:

·     Ele pode ser efetivamente utilizado dado o tamanho do rebanho.

·     As raças escolhidas produzem fêmeas precoces, que estarão adaptadas às condições climáticas e nutricionais.

·     As raças escolhidas produzem bezerros com taxas de crescimento adequadas, e carcaças com excelente qualidade.

     Os touros selecionados devem ser superiores dentro de suas determinadas raças, e eles com exame andrológico positivo.



Balanço Leilão - Agosto 2018

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IT Quality - Abate machos

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IT Quality - Abate machos

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Vídeo Touros Guzerá IT 75% mais rentáveis

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Guzerá IT - MAIS com menos

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Vídeo Guzerá IT 50 anos

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Entrevista Robert Sainz - Universidade da Califórnia

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Projeto Quality IT

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6º Abate Técnico Raça Guzerá.

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Abate Técnico Guzonel.

 Fazenda Perfeita União - Irmãos Tonetto
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